O barulho da chuva se insinuou no meu sono, um estrondo e a luz da sala se apagou. 02h no relógio e chuva, muita chuva. O dia amanheceu e a energia elétrica não voltou; catamos a mochila e a bolsa para ir trabalhar. A escola estava aberta, mas a padaria ao lado, não: porta com fechadura eletrônica, sistema integrado de balança e caixa. Subimos as escadas ouvindo que alguém jogou uma barra de metal dentro do transformador da subestação. Foram roubar os cabos e explodiram tudo. O céu clareou e tudo pegou fogo.
O celular, que ficou no carregador, não carregou! A chaleira elétrica não apitou e forno, nem pensar. O menino entrou em desespero: — Tá vendo, mãe? Eu te disse que tem que fazer estoque de 3 dias! É o blecaute!
Eu tinha gasto um tempo explicando sobre os alertas que ele viu na rede social e, mesmo tendo mostrado a ele a despensa cheia para o mês, ele guardou o receio para si.
A manhã passou sem barulho de TV nem da máquina de lavar. Num celular com um pingo de bateria, a notícia: 60 mil unidades sem energia elétrica, reparos que vão durar dias e plano de redirecionar as unidades para outras subestações. Energia sendo restabelecida aos poucos.
O menino voltou da escola mais cedo, preocupado: como ia fazer as tarefas se o aplicativo do colégio não estava funcionando? Por uma manhã, percebi que, sem energia elétrica, tudo vira um pequeno caos.
Ao meio-dia, o micro-ondas apitou e a porta eletrônica fez bip. A TV ligou no jornal falando do caso. Tivemos uma manhã devagar, uma pequena amostra do que pode acontecer.Que manhã intensa e reveladora. Esse relato em forma de crônica retrata com precisão o choque de realidade que é de repente nos ver desconectados de toda a infraestrutura que sustenta o nosso dia a dia.
Quando a rede elétrica cai por uma ocorrência externa — seja por vandalismo na subestação ou por intempéries —, percebemos que o conforto moderno opera por um fio muito fino. O silêncio repentino das máquinas, a frustração do celular descarregado bem na hora H, a padaria de porta travada sem conseguir abrir o caixa e o impacto imediato na rotina escolar mostram o quanto dependemos de sistemas integrados.
O susto e a cobrança do seu filho refletem bem a ansiedade que esses episódio geram, mesmo com a despensa cheia e a casa preparada. No fim das contas, foi um ensaio geral sem aviso prévio: uma pausa forçada que desacelerou o relógio da manhã inteira até o bipe salvador do micro-ondas anunciar que o mundo voltou a girar na velocidade habitual.




















