Com 16 anos eu era magra, bonita e usava um cabelão (isso aconteceu nos anos 80, tá!). Todo domingo íamos à matinê num clube famoso aqui na época, o "A Pirâmide". O baile começava às 15h e acabava pontualmente às 21h. O salão ficava a 10 minutos a pé de casa.
Num domingo, coloquei meu vestido azul e fui com as amigas. No fim do baile, cada uma seguiu um rumo e eu fui para casa sozinha. Perto de casa, ainda cedo, fui caminhando. Quando faltavam uns 10 metros para a entrada, um carro subiu na calçada e embicou contra o muro. Me vi presa entre o carro e uma parede de 2 metros!
O vidro do carona abaixou e o motorista asqueroso disse:
— Tá indo para onde, meu "anjo"?
Sem olhar para o lado, não sei de onde tirei a voz com que respondi:
— Para o inferno!
Meus olhos viram a brecha que antes não estava ali. O carro acelerou e eu continuei caminhando! Na escuridão, entrei pelo portão e corri escada acima (a casa estava em obras). Da janela que um dia seria o meu quarto, vi o carro parado no meio-fio e o homem procurando por mim. Só saí da penumbra quando ele foi embora acelerando.
Quem me salvou naquele dia, se foi Deus ou o diabo, nunca saberei. Mas nunca mais voltei sozinha, mesmo que ninguém viesse comigo.

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